domingo, 3 de maio de 2009
Augusto Boal
Augusto Boal faleceu no Rio de Janeiro com 78 anos de idade. Ainda esse ano eu li que ele recebera um prêmio do governo francês, ou seja, continuava ativo e presente como devemos ser em qualquer idade. Boal foi uma das figuras mais importantes para o teatro brasileiro dos últimos 50 anos.... etc
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
Buffalo Soldier!

Michelle Obama é a primeira primeira dama negra dos States! Barack Obama, 'buffalo soldier', seduz pela palavra. Como os velhos bardos mitológicos e poetas épicos. Feitiço havaiano. Por isso até o conservador Elvis Presley iria curtir. Walt Whitman branco e homossexual iria curtir. Bob Marley negro e heterossexual também curtiria. Muito. Assim como Castro Alves, José do Patrocínio, Machado de Assis e Monteiro Lobato.
Dizem que as épocas são de fato gestoras de seus próprios líderes. Para além da aceitação popular - sem precedentes no mundo - o fato dele ter começado a carreira fazendo trabalhos sociais é uma diferença interessante para esses tempos cruéis. Novas lideranças ainda podem surgir de lugares inusitados e o que impressiona é a força que a política ganha. Justamente num momento em que a economia se encontra tão debilitada. Nem o esporte, nem a arte, nem a religião consegue nos unir dessa maneira. Justamente o que parece mais nos separar, justamente o que não se discute. A força está na vontade, na palavra e na esperança.
Mas há quem diga que com Barack ou sem Barack estamos na mesma. Que tudo é apenas um disfarce do imperialismo. Que o otimista é um pessimista mal informado e que é preciso que as coisas mudem para continuarem como sempre foram. E que sonhar também pode tornar-se um pesadelo... Tudo isso dito, voltemos ao fenômeno Obama.
Conquistou um máximo de eleitores jovens. Fez campanha usando novas mídias, gente nova e não desprezou também velhos recursos e conchavos. Em sua posse o google e outros sites despencaram a frequência. Em compensação o twitter bombou! Todos queriam dizer onde estavam e o que sentiam. Apesar do frio de rachar... Discurso impecável. Pra tempos de crise, escrito por um jovem de 28 anos a partir de conversas com o presidente eleito. Depois de toda a euforia do "young power" dos anos 60, passados 40 anos de 1968, enfim parece que nessa eleição os jovens finalmente foram decisivos. Assim como Michelle, ma belle.
John Lennon disse uma vez que a mulher era o negro do planeta. A maior conquista dessa eleição parece ter acontecido no campo simbólico. É improvável que a dimensão real ultrapasse esse signo sem desgaste. Como o Brasil do tempo de Lulalá! Falando nisso, vocês conhecem o Obameter? Muito interessante! Deveríamos ter um Lulameter também! Seria muito útil além de muito divertido, educativo...
Pra terminar, uma canção também simbólica - de um tempo em que ninguém imaginaria ser possível um presidente negro nos States:
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sábado, 17 de janeiro de 2009
Maysa, quando canta o coração!

Férias! Também peguei a febre Maysa! Senti-me uma macaca de auditório! Noves fora, não perdi um capítulo! E ainda vim pra internet ver o que estava acontecendo em torno da tal mini-novelinha. Sob vários aspectos, nunca houve nada parecido com essa super-produção global. Um filho - o sr. diretor Monjardim - podendo pagar ao vivo e a cores, com a maior competência, o que devia à mãe artista. E que artistas! Ao final o diretor dedicou o trabalho à mãe e assinou a dedicatória. E apesar de ter sido apenas um flash final, foi comovente.
Nos anos 70 o disco da novela “Estúpido Cupido” não saía da vitrola lá de casa. Mas os hits eram o “Biquini de Bolinha Amarelinha”, “Neurastênico”, “Broto Legal” e as da Celly Campelo, todas alegres e divertidas. Aliás foi por causa dessa novela que passamos a cantar essas músicas dos 60's e adoramos a Celly Campelo. Já na música “Meu mundo caiu” de Maysa a gente pulava, pulava a faixa! Muito deprê pra quem tinha 10 anos de idade e irmãos ainda menores, mas, com o tempo fui gostando cada vez mais daquela voz grave e também dos trombones do arranjo. No fim, até pelo exagero infantil, a música também passou a fazer parte das nossas dublagens performáticas.

Foi assim que Maysa deve ter aparecido pela primeira vez pra toda a minha geração, na trilha da novela “Estúpido Cupido". Uma geração depois e ela reaparece pela mesma tela. Fora isso, não havia discos de Maysa em casa. Não tocava mais no rádio, nem aparecia na TV. Aliás ela ainda estava viva quando a novela foi ao ar. Morreria só em 1977, antes do Elvis Presley, e mais nova que ele também.
Maysa foi parte de uma geração existencialista, pós Segunda Guerra Mundial, quando era chique ser triste. Antes da fenomenal bossa-nova a velha fossa estava bombando. Some-se a isso um coração insatisfeito: - “Mesmo que os cantores sejam falsos como eu serão bonitas, não importa são bonitas as canções” - e uma cantora verdadeira. Assistir o programa foi pra mim o encontro com uma grande artista. Só tenho uma crítica: meteram um intervalo comercial bem no meio da música “Ne me quittes pas”. Desrespeito total! Imagino que o diretor não deve ter gostado nada disso também.
Mas a gente pode se vingar assistindo online a real interpretação:
Aliás, uma rápida volta pela internet e ficamos sabendo que a Globo se arrependeu de ter reduzido para 9 capítulos, pois chegou a alcançar 30 pontos no ibope. Muitos méritos, novos atores - impressionante o trabalho da Larissa Maciel -, muita técnica de todos na interpretação, cenografia, figurino e sonoplastia. Mas o melhor mesmo foi voltar a ouvir Maysa. Fiquei principalmente interessado em suas interpretações de músicas estrangeiras. Não sabia que ela havia gravado “Round Midnight”, tinha esquecido do “Ligth My Fire” e gostei das castelhanas também. Fiz uma seleção só com essas estrangeiras. Salve o player mp3!
E foi navegando atrás de Maysa que aportei em mais uma cantora: Ithamara Koorax - brasileira eleita pela revista Downbeat uma das 5 melhores cantoras de jazz de 2008! E olha que a moça já tem discos desde 1993! Nesses tempos de cantoras da web, como a gente pode passar tanto tempo sem conhecer um trabalho tão interessante como o da Ithamara? Salve, salve as cantoras do rádio! - Que nos chegam pela ficção, pela rede e pelo ouvido... Meu mundo levitou!
algumas da febre Maysa e outros links:
- fotos de Maysa
- Maysa & Amy Whinehouse
- site oficial da minissérie
- entrevista com Manuel Carlos o autor do texto
- entrevista com Ithamara Koorax
sexta-feira, 20 de junho de 2008
When I'm sixty four... You'll be older too!
Deve ter sido bonita a festa, pá! O jovem Chico Buarque fez aniversário ontem! Jovem sim, pois o Velho Chico é outro rio. O Buarque ainda é boleiro. Anda por aí num passo apressado, de tênis e bom humor! O Chico de 64 anos tem mais lenha pra queimar do que a Amazônia!Assim como os Beatles e os Rolling Stones, Chico é das melhores coisas da cultura do século XX. Assim como os Beatles (When I'm sixty-four) e Caetano Veloso (O Homem Velho), Chico também já refletiu sobre a velhice em suas canções (O Velho - O Velho Francisco). Mas Chico sobreviveu talentosamente, literariamente, visceralmente, a todos os Beatles e Rolling Stones e tantos outros mortos vivos... Time is on his side!
O poeta Leminsky, sempre certo e sensível, dizia que o povo ama seus poetas.
Essa percepção de Leminsky podemos constatar em nós mesmos. Quase todos os dias eu me lembro de um Vinícius de Moraes que vi há tanto tempo na tv. Em branco e preto, são e calvo, Vinícius dizia pra câmera que todos os dias ele pensava nos seus amigos. Todos os dias. E ia citando sem constrangimento de esquecer ninguém: Pixinguinha, Tom Jobim, Chico Buarque, Manuel Bandeira... E por aí ele ia... Eu também vou por aí, e além dos meus caros amigos de sempre - por força das circunstâncias sempre estão distantes -, penso eu também, todos os dias, em nossos artistas. Esses sim sempre pertos, espertos e presentes. Como o Chico Buarque.
A última vez que o vi foi semana passada, no ótimo filme sobre o fotógrafo Evandro Teixeira, "Instantâneos da Realidade". Chico, sempre um gozador, se auto ironiza dizendo que está ficando com a cara dos velhinhos que aparecem nas fotos do Evandro. E o Evandro nem riu! Aliás, o Chico contou a divertida história dessa foto, idéia do Vinícius, claro! Reparem como a luz de Deus cai direto nele!
Nossos artistas acompanham-nos pela vida toda. Maravilham-nos e nos fazem vigia... De toda poesia que entornam no chão. E jamais envelhecem.
sexta-feira, 30 de maio de 2008
Sexo, Orégano e 1968
Ah! Que preguiça de falar ainda mais de 1968... Mas pra não perder a data do post que farei depois nesta data fica então posto. Forever green Luísa...
terça-feira, 13 de maio de 2008
- Bebel, a Redentora!

Todo o 13 de Maio é assim! Os professores de História lembram-se da famosa "Lei Áurea", que hoje está de aniversário. Afinal são 120 anos! E parece que foi ontem...
Como é sabido por todos essa lei aboliu a escravidão no Brasil, porém ela sequer cita a palavra "escravo"!
Tida como retrógrada a lei já foi bastante criticada - e com razão -, por diversas correntes de nossa historiografia. Vamos às críticas mais correntes:
- O Brasil foi o último país da América, e um dos últimos do mundo a abolir a escravidão. Só por isso já seria difícil defender a posição da Monarquia, que garantiu para os latifundiários que ainda careciam, o barato e já nem tão farto, porém exausto braço e mãos-de-obra escrava. Negra herança colonial.
- A lei também não teve o cuidado de determinar o que aconteceria com os ex-escravos depois de libertos. Então seguiu-se duas situações: 1. No campo pouco mudou e o ex-escravo passou a uma condição semi-servil. Trabalhando por comida e moradia e podendo ser dispensado e maltratado como sempre. E sem recurso a revoltar-se, pois, agora era livre, oras! Tá reclamando o quê? Não quer vai embora!
2. Se estivesse em área urbana o ex-escravo não teria como competir com a então farta mão-de-obra imigrante assalariada. Essa era mais produtiva e branca, em tempos de preocupação oficial com o embranquecimento do Brasil, ser branco era a melhor parte do currículo... O ex-escravo urbano foi então relegado à sombra social, ao gueto, à margem. Esse marginal agora pelo menos poderia preferir a sua condição de trabalho temporário pra ganhar quase nada. E viver de soprar a fumaça de seu bongô* nas escadas do cais do porto nos muitos dias sem trabalho. Ao invés de arrumar um emprego que o prendesse pra sempre, pra sempre ganhar a mesma miséria de sempre... E muita gente então dizia: - É! Esses negros definitivamente não gostam de trabalhar! Pois agora estão livres e nem procuram trabalho! Nem se esforçam pra melhorar... Tão pensando o quê?
- Os brancos coroados eram nosso imperador D. Pedro II e sua filha a Princesa Isabel, declaradamente abolicionistas. Em um país racista como o nosso, o fato de uma branca ter sido a responsável pela assinatura que libertou os negros... Ah! Não sei não, mas é claro que isso deveria ser lembrado para denegrir a lei... Afinal qual outras leis foram feitas por negros nesse país? E por aí vão às críticas ao tal 13 de maio, umas legítimas, outras nem tanto, porém:
- Em 1995 comemorou-se 300 anos da resistência de Zumbi dos Palmares no nosso mais conhecido quilombo de outrora. Nesse ano adotaram o dia 20 de novembro como o "Dia da Consciência Negra". Lembro-me de algum falatório em torno da data, como sendo também uma alternativa ao tão criticado 13 de maio oficial.
O fato é que de uns anos para cá nossa historiografia tenta reabilitar a data de hoje como um momento importante na construção de nossa cidadania. Como um avanço sócio-político. Sim! Ainda que atrasado e complexado.
Pra terminar vamos comemorar esse 13, lembrando aqui um samba-enredo da melhor qualidade, que muito mais gente deveria conhecer... Tão malandro em seu eruditismo pernóstico quanto brilhante em sua resolução final. E eu tive o prazer de conhecer o tal sambinha ainda recém nascido. Lembro de meu compadre Wella num bar, todo empolgado, contando como ele mais o amigo Paulinho Carvalho fizeram o samba: - Num estalo! Primeiro veio o nome gigante - quem sabe uma lembrança das decorebas exigidas pelos profs de história do passado. E depois a segunda parte: totalmente pícara! E eu ali em pé, ouvindo no meio da zoeira de vozes e gravando de imediato, pra depois ir cantando pra casa, a melhor homenagem à princesa Dona Isabé que eu conheço. Sempre escuto a percussão... Pesada! E no cavaquinho... Nervoso!
Mas aqui por enquanto vai só a letra mesmo:
"Isabel Cristina" (Wella-Paulinho Carvalho)(2001) Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança falar teu nome todo cansa! E como cansa... E como cansa... E eu cansei! Cansei de ser escravo Bateu as asas a liberdade no céu E hoje, tenho direito à preguiça Só vô chamar Vossa Alteza de Bebel! De Bebel! |
"Viva aquele que se presta a esta ocupação! Salve o compositor popular!"
quinta-feira, 1 de maio de 2008
Quem trabalha é que tem razão?
Discurso de Gegê no melhor estilo 'pai dos pobres'. Impressionante como essa entonação sacralizada soava verossímel na época. Repare nos sorrisos dos 'papagaios de piratas' quando Gegê inicia com seu famoso bordão: - Trabalhadores do Brasil!
Esse vídeo é de 1951. Vargas não era mais um ditador apesar de ter conservado a prática populista. O estádio estava cheio. A multidão em delírio como se fosse assistir a um show de prêmios. Vargas cercado por milhares de correligionários. Dali a três anos esse homem daria um tiro no coração...
O feriado de Primeiro de Maio foi instituído por Arthur Bernardes em 1925, mas foi Vargas quem inventou comemorar junto com o povo a partir de 1939. A data festiva era programada pelo DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) e usada para promover a figura do ditador, que sempre anunciava novas leis trabalhistas. Logo após, um jogo de futebol fazia o povo se sentir muito bem tratado e protegido por seu presidente sorridente.
Hoje o PIB é bem maior, a distância entre ricos e pobres maior ainda e as estrelas não são mais os políticos. A política não é mais sacralizada. Esse ano, o 'Show de Primeiro de Maio' em São Paulo atraiu 40 mil pessoas para assistir 40 atrações artísticas... Algum político atreveu-se a dar a cara? Alguma liderança sindical propôs um pouco mais de justiça?
Atualmente nossas centrais sindicais estão muito parecidas com esses senhores das arquibancadas:

Mas o melhor mesmo é ser feriado prolongado e sobrar tempo até para posts.
Em 1941 Ataulfo Alves e Wilson Batista cooptavam - pressionados ou não - com o Estado Novo. E firmavam a figura do trabalhador ordeiro e responsável:
Quarenta anos depois Chico Buarque opera suas palavras para uma homenagem às greves do ABC de 1978:
Em tempos mais sombrios - Show do Riocentro em Primeiro de Maio de 1981 - uma bomba explodiu no estacionamento, enquanto Alceu Valença cantava seu "Coração Bobo". A direita manifestava-se contra a anunciada abertura da forma mais violenta. Mas só sairam feridos os que haviam tentado ferir.
E pra terminar quem conhece a rara e esquecida parceria entre Chico Buarque e Milton Nascimento? Do outro lado do compacto simples a famosa "Cio da Terra". Mas Primeiro de Maio é hoje!
Trinta anos depois da canção muitos operários dormem nas ruas. Não há mais greves. Nem homens de amanhã. Só a arte nos redime.
Esse vídeo é de 1951. Vargas não era mais um ditador apesar de ter conservado a prática populista. O estádio estava cheio. A multidão em delírio como se fosse assistir a um show de prêmios. Vargas cercado por milhares de correligionários. Dali a três anos esse homem daria um tiro no coração...
O feriado de Primeiro de Maio foi instituído por Arthur Bernardes em 1925, mas foi Vargas quem inventou comemorar junto com o povo a partir de 1939. A data festiva era programada pelo DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) e usada para promover a figura do ditador, que sempre anunciava novas leis trabalhistas. Logo após, um jogo de futebol fazia o povo se sentir muito bem tratado e protegido por seu presidente sorridente.
Hoje o PIB é bem maior, a distância entre ricos e pobres maior ainda e as estrelas não são mais os políticos. A política não é mais sacralizada. Esse ano, o 'Show de Primeiro de Maio' em São Paulo atraiu 40 mil pessoas para assistir 40 atrações artísticas... Algum político atreveu-se a dar a cara? Alguma liderança sindical propôs um pouco mais de justiça?
Atualmente nossas centrais sindicais estão muito parecidas com esses senhores das arquibancadas:

Mas o melhor mesmo é ser feriado prolongado e sobrar tempo até para posts.
Em 1941 Ataulfo Alves e Wilson Batista cooptavam - pressionados ou não - com o Estado Novo. E firmavam a figura do trabalhador ordeiro e responsável:
| "Quem trabalha é que tem razão Eu digo e não tenho medo de errar O bonde São Januário leva mais um operário Sou eu que vou trabalhar..." (Bonde São Januário) |
Quarenta anos depois Chico Buarque opera suas palavras para uma homenagem às greves do ABC de 1978:
| "Linha, linha de montagem A cor a coragem cora, coração Abc, abecedário, oper operário Pé no pé no chão (...) As cabeças levantadas Máquinas paradas Dia de pescar Pois quem toca o trem pra frente Também de repente Pode o trem parar(...)” (Linha de Montagem - Chico e Novelli) |
| Essa canção ia ser apresentada ao público por Chico Buarque, pela primeira vez, a 20 de abril e depois a 27 de abril de 1980, no Show de Vila Euclides - espetáculo musical cuja renda seria encaminhada ao Fundo de Greve dos Metalúrgicos. No entanto, o show - que iria ter lugar em São Bernardo, no Estádio de Vila Euclides, foi proibido, duas vezes, pela Polícia Federal e pelo DEOPS de São Paulo, apesar de terem sido vendidos mais de 100.000 mil ingressos. (Adélia Bezerra de Meneses em Desenho Mágico, HUCITEC, 1982) |
Em tempos mais sombrios - Show do Riocentro em Primeiro de Maio de 1981 - uma bomba explodiu no estacionamento, enquanto Alceu Valença cantava seu "Coração Bobo". A direita manifestava-se contra a anunciada abertura da forma mais violenta. Mas só sairam feridos os que haviam tentado ferir.
E pra terminar quem conhece a rara e esquecida parceria entre Chico Buarque e Milton Nascimento? Do outro lado do compacto simples a famosa "Cio da Terra". Mas Primeiro de Maio é hoje!
| "Primeiro de maio" (1977) Hoje a cidade está parada E ele apressa a caminhada Pra acordar a namorada logo ali E vai sorrindo, vai aflito Pra mostrar, cheio de si Que hoje ele é senhor das suas mãos E das ferramentas Quando a sirene não apita Ela acorda mais bonita Sua pele é sua chita, seu fustão E, bem ou mal, é o seu veludo É o tafetá que Deus lhe deu E é bendito o fruto do suor Do trabalho que é só seu Hoje eles hão de consagrar O dia inteiro pra se amar tanto Ele, o artesão Faz dentro dela a sua oficina E ela, a tecelã Vai fiar nas malhas do seu ventre O homem de amanhã |
Trinta anos depois da canção muitos operários dormem nas ruas. Não há mais greves. Nem homens de amanhã. Só a arte nos redime.
quarta-feira, 23 de abril de 2008
São Jorge, Pixinguinha e mais um livro...
Ontem foi também uma data histórica: 22 de Abril! Sempre lembro. Dia em que, segundo a Carta de Pero Vaz, vieram à terra pela primeira vez, os grumetes e marinheiros de caravelas e naus que seguiam pras Índias com o capitão Cabral. Não há como esquecer a marchinha de Lamartine:| "Quem foi que inventou o Brasil Foi seu Cabral Foi seu Cabral No dia 21 de Abril Dois meses depois do carnaval!" |
| "Jorge sentou praça na cavalaria E eu estou feliz porque eu também sou da sua companhia Eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge Para que meus inimigos tenham mãos e não me toquem Para que meus inimigos tenham pés e não me alcancem Para que meus inimigos tenham olhos e não me vejam E nem mesmo um pensamento eles possam ter para me fazerem mal Armas de fogo, meu corpo não alcançarão Espadas, facas e lanças se quebrem, sem o meu corpo tocar Cordas e correntes se arrebentem, sem o meu corpo amarrar Pois eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge" |
São Jorge foi soldado em plena decadência do Império Romano. O imperador Diocleciano - o mesmo que fez o Édito Máximo pra tentar conter o dragão da inflação que assolava Roma -, também perseguiu os cristãos para o bem da cristandade. São Jorge morre como mártir em seu governo. Mas o monstro da inflação, que seria a ruína de Roma, o imperador não derrotou. Já o césar seguinte, Constantino, fez o Édito de Milão, que permitiu a liberdade de culto aos cristãos, legitimando a fase: "se não pode com eles, junte-se a eles". Lembro-me de um açougue na infância - com todas aquelas carnes sanguíneas penduradas nos ganchos - e o São Jorge cristão lá no alto, logo acima da porta do frigorífico, imenso em seu cavalo branco de louça, sempre lancetando o dragão. Foi minha primeira visão de São Jorge. Não seria de estranhar se as crianças pensassem que ali também se vendia carne de dragão...
Mas hoje também é aniversário de Pixinguinha!

Santo de nossos melhores choros, filho de Ogum e bexiguento. Nascido Alfredo da Rocha Vianna, foi logo chamado de Pizindim pela língua africana da avó. Isso somado às terríveis marcas deixadas pela varíola, dita bexiga na época, e temos esse hibridismo sem igual: Pixinguinha! Para um músico também inigualável. E quem duvida que conhece suas músicas fale pra vovó cantarolar o Carinhoso, ou então, reconheça que conhece muitos dos seus chorinhos pelas trilhas de época da tv. Sua música poderosa marcou nosso século XX e firmou o conceito de música brasileira, entre nós e no exterior.
E ainda ontem garimpando as estantes dos livreiros, achei uma gema que se encaixa como luva em nossa pauta:

Com uma ótima introdução de nossa mestra Mary Del Priore.
E com o preço menor lá na fnac.
Não confunda literatura e história, mas também não dispense uma pra melhor saborear a outra. E por último, num arroubo quixotesco, arrisco uma metáfora de cena: o estilo é a lança, o cavalo é quem lê, o escritor é o santo e o tema o dragão. Pra trilha sonora o "Um a zero" de Pixinguinha. Salve Jorge!
quinta-feira, 27 de março de 2008
Aquarelas do Brasil

Ah! Que preguiça! Que prazer ter um livro pra ler e nada fazer!
E no entanto adorei esse livrinho. Surpresa boa! Uma coletânea de contos e trechos de romance sobre música brasileira. Tem Machado, João do Rio, João Antônio e outros bambas! Tem até um do autor da coletânea: - Flávio Moreira da Costa!
Livro fruto de idéia tão boa que me animou a voltar aos posts.
O tempo parece estar acelerado mesmo. Só agora notei que não postei o verão inteiro!
Ah! que preguiça! Mas no outono as folhas caem...
E a gente fica mais introspectivo...
Bom outono a todos!
Pra compra online na fnac tá barato!!
segunda-feira, 26 de novembro de 2007
Jornal Nacional embarca com D. João VI

Há duzentos anos a corte portuguesa saía de Portugal rumo ao Brasil. O Jornal Nacional começou hoje a apresentar uma série para lembrar a aventura. Isso é uma prévia do que acontecerá o ano que vem no aniversário de 200 anos de Corte Lusa no Brasil. Assita a reportagem.
sábado, 24 de novembro de 2007
terça-feira, 20 de novembro de 2007
Heróis da Liberdade!
Para Antonio, Chica, Zumbi, Mano, Manoel, Silas e Marçal. A imagem é real!
Heróis da Liberdade (1969) ouça |
Leia sobre a canção no site
quinta-feira, 15 de novembro de 2007
Evoé! Musa República!
O poeta americano Walt Whitman (1819-1892) saúda a nascente República brasileira:"A Christmas Greeting" (From a Northern Star-Group to a Southern. 1889-90) (fonte) |
***
With the Man (Paulo Leminsky) |
Walt Whitman é um poeta maior, patriota, homossexual, libertário, precursor dos beatnicks e dos hippies. Barbudo como um arbusto, evoca-me Edgar Allan Poe, Paulo Leminsky e outros do mesmo quilate. Na internet:
- Uma mulher espera por mim
- Comentário e alguns poemas.
domingo, 11 de novembro de 2007
Um rei que sabia demais!

Os shoppings das cidades do Brasil já contam com a presença de Papai Noel! O bom velhinho parece chegar mais cedo a cada ano. Ouvi o comentário de um deles – “É por causa do derretimento do Pólo Norte!”
Pois, não fosse a faixa presidencial e o matiz preto e branco envelhecido, muita gente poderia pensar que a foto da capa da Veja dessa semana é a do bom velhinho das renas. Mas trata-se do ex-imperador do Brasil, D. Pedro de Alcântara, mais conhecido como D. Pedro II.
Nosso segundo e último imperador, embora não esteja no panteão dos heróis da pátria, é um caso raro de conduta política digna marcada pela ética e pelo desprendimento. Além do mais, seu interesse pelas artes e ciências fez dele um personagem ímpar. Mais do que um “provável refúgio para a desolação emocional” – como nos escreveu a repórter da revista Veja – o interesse de D. Pedro II pela ciência foi compartilhado por muitos no séc. XIX.
As invenções, maravilhosas e assustadoras para a época, - como a locomotiva (1804), a fotografia (1835), o telégrafo (1835), o telefone (1860), o fonógrafo (1877) - e outras, realmente mudaram a maneira do ser humano se relacionar com o mundo. Afora isso, outros saltos intelectuais como a publicação da “Origem das Espécies”, por Charles Darwin em 1859, fizeram muitos acreditarem que a ciência chegava finalmente ao seu máximo! E que nada mais faltava pra ser inventado! Teorias como o positivismo de Augusto Comte (“Ordem e Progresso”) e a doutrina espírita de Allan Kardec estão intimamente ligados a essa maneira de ver o mundo.
Em 1876 os EUA comemoraram 100 anos de República e o imperador D. Pedro II foi até lá para participar das comemorações e visitar a Feira de Ciências da Filadélfia. Foi nessa feira que o imperador tornou-se uma das primeiras pessoas do mundo a falar ao telefone ("Meu Deus isso fala!") – gostou tanto que fez do Brasil o primeiro lugar a ter telefone fora dos EUA. Inclusive o próprio Alexandre Graham Bell agradeceu ao imperador com uma carta de próprio punho, considerando o interesse do monarca fundamental para despertar a atenção que o novo invento exigia.
Outra paixão foi a fotografia – que naquele momento se chamava ainda daguerreótipo. Ele comprava os aparelhos, importados e caros, e o presenteava talentos como Gilberto Ferrez, que se tornou o primeiro grande fotógrafo brasileiro. O próprio Pedro II foi fotógrafo amador e essas artes reais fizeram do Brasil um dos países com maior acervo de fotos do século XIX do mundo. O acervo de Ferrez está hoje no Instituto Moreira Sales e pode ser visitado online.
Também na música o rei foi um benemérito e exercia um mecenato que atingiu músicos amadores e corais de crianças negras ou brancas, tanto quanto o maior ídolo da música brasileira na época: Carlos Gomes, autor da conhecida ópera “O Guarani” – cuja protofonia toca até hoje no início do programa “Hora do Brasil” e é ainda familiar para muitos brasileiros. D. Pedro II também deu permissão para que Fred Figner – representante da Casa Edison no Brasil – vendesse o fonógrafo de Edison no Brasil. Com isso a família real tornou-se a primeira no país a deixar sons registrados no gravador da época e o país logo depois entrou na era das gravações que revolucionou a indústria cultural.
Pelo interessante apanhado de frases feitas pela reportagem da revista Veja podemos ter uma idéia geral das idéias de nosso ex-imperador.
Frases de D. Pedro II: |
Em tempos de corrupção infame e de um fisiologismo assustador, Pedro II, justamente um imperador, bem que podia servir de inspiração aos futuros políticos e velhas raposas da nossa tão malfadada Nova República.
Pra quem quiser ir mais fundo:
– As Barbas do Imperador, de Lilia Moritz Schwarcz.
- D. Pedro II: Ser ou não ser, de José Murilo de Carvalho.
- Citizen Emperor, Roderick J. Barman - historiador britânico hoje baseado no Canadá.
- D. Pedro II e seu mundo através da caricatura, de Araken Távora.
sábado, 3 de novembro de 2007
Feliz Dia de São Crispim!
Ontem foi dia de todos os santos... porém o atraso não invalida a saudação... 25 de Outubro é dia de São Crispim! Dia da 'Batalha de Azincourt', a famosa batalha da Guerra dos Cem Anos (1337-1453) na qual os ingleses com um exército mais de três vezes menor venceram os franceses de milhares de soldados lutando em casa. A cena do filme 'Henry V' (1989) de Kenneth Branagah é memorável. Mas, o que me levou até a cena foi uma pesquisinha sobre a música "Non Nobis" que eu me lembrava do filme mesmo: - "Non nobis, Domine, non nobis, sed nomini Tuo da gloriam" (Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao Vosso nome dai a glória). A frase guarda uma profunda sabedoria transcendental e já foi a divisa dos cavaleiros templários.
Parece que esse blog é especializado em cinema... mas é pura coincidência...
quarta-feira, 31 de outubro de 2007
O sonho da razão produz montros...
As relações ocultas que permeiam o cotidiano são intrigantes e reveladoras. De segunda para terça-feira sonhei com Adolf Hitler. Nunca antes eu havia sonhado com o “Fürher”. No sonho eu estava dando aula em Brusque –SC, em uma sala longa e estreita. Os alunos todos sentados e o general em pé com seu uniforme de guerra, olhando os mapas na parede. Para isso ele se debruçava por cima dos alunos e aquilo me incomodava. De cima do tablado, mesmo com medo eu imitava os passos marciais dos soldados nazistas e levantava o braço fazendo a conhecida saudação. Como era uma pantomima brincalhona obviamente que eu não estava à vontade, mas, Hitler, estático, continuava olhando os mapas... Até que repentinamente seus famosos olhos me encararam ameaçadoramente. A cena do sonho foi muito rápida e nítida! E apesar do sonho ser colorido, Hitler era preto e branco, como nas fotos que estamos acostumados. O sonho me incomodou tanto que acordei como em um pequeno choque.Por que o sonho? Será pela matéria que vi no Fantástico, sobre a ação dos neonazistas de São Paulo? Por que Brusque? Será a colonização alemã? Conexões ocultas ou coincidência apenas o fato é que na noite de terça-feira o filme da Mostra Internacional de Cinema da TV Cultura me deixou mais ainda impressionado. Eu Fui a Secretária de Hitler. Um documentário feito por um relato cru de Frau Tradl Junge, secretária desde 1942 e participante dos últimos momentos do ditador.
Eu já tinha ouvido falar do filme na época de seu lançamento em 2002. Lembrava também ter ouvido falar da tal secretária a propósito do lançamento do filme "A Queda", uma ficção sobre os últimos dias de Hitler que ainda não assisti. Mas não tinha idéia da força de um depoimento. A força da 'História Oral'. Sem imagem e sem maquiagem. O filme mostra a importância dos relatos de contemporâneos para nos ajudar a pensar o mundo e as experiências humanas. Consegue nos prender a atenção, apesar de não haver outras imagens a não ser a octogenária Frau Tradl falando em seu apartamento.
O relato é impressionante e revelador da alma humana com todas as suas contradições. Relato triste e grotescos sobre pessoas que colocaram sonhos e ideais de conquista acima da ética com resultados desastrosos como todos sabem. Porém, Frau Tradl Junge deixa bem claro seu próprio veredicto a propósito de sua experiência única, na última cena do filme. Ela conta que quando foi finalmente libertada e anistiada em 1946, ao andar por uma rua de Berlim deparou-se com uma estátua em homenagem a uma jovem que fora assassinada por se recusar a participar da juventude nazista. Coincidentemente a jovem foi morta no mesmo dia em que Frau Tradl aceitou trabalhar para Hitler. E ela termina dizendo: - O fato de eu ser jovem não me exime da culpa de ter aceitado fazer o que fiz...
Desde o fim do século XVIII, o século das Luzes! O pintor espanhol Francisco Goya já alertava “O sonho da razão produz monstros”. Esses monstros ainda circulam entre nós.
Frau Tradl Junge morreu algumas horas depois do filme ter feito sua estréia nos cinemas de Berlim em 2002.
quinta-feira, 25 de outubro de 2007
Um filme falado

Na noite dessa última terça-feira eu tive muita sorte. Já estava quase indo dormir quando parei pra ver qual seria o filme da TV Cultura na Mostra Internacional de Cinema. Quando o apresentador, Leon Kakoff, começou a falar achei até graça! Como pode existir um filme assim e eu nem suspeitar de sua existência?
Todos os professores de História deveriam assistir... E passar para seus alunos! O filme é uma viagem! Literalmente. Literariamente. Um cruzeiro pela bacia do Mediterrâneo e suas incríveis civilizações que colonizaram o mundo do Ocidente e do Oriente. Atrás da aparente simplicidade das conversas entre mãe e filha, e depois, na mesa redonda e poliglótica que se instalou no navio sob o comandante Malkovich, existe uma profunda reflexão sobre a Europa colonizadora e decadente e a condição humana atual.
E ainda de brinde, a beleza de Catherine Deneuve, que já deve ter passado dos sessenta anos! (Numa rápida pesquisa descubro que ela fez aniversário ontem!) O mistério da fala e da voz de Irene Papas (cantora grega que um dia teve um animado papo com Vinícius de Moraes...) e a bela jovem professora de História da Universidade de Lisboa além de outra bela ragazza na mesa do papo.
O filme foi feito em 2001 e lançado em 2003 pelo consagrado diretor português Manuel de Oliveira, na época com apenas 94 anos! Aliás, nesse ano de 2007 esse jovem faz 100 anos! Minha pátria é minha língua! Porém não há civilização que não afunde... somente a história sobrevive...
Confira mais fotos e sinopses e otras cositas más no site oficial do filme.
sexta-feira, 19 de outubro de 2007
"Vai pra lá que eu vou pra cá"... um drible que valeu por cinco gols!
"É como se o corpo recebesse uma luz repentina inexplicável..."
Robinho foi essa semana a encarnação dessa frase de Chico Buarque. Em uma partida com Maracanã lotado e 5 gols marcados, o lance mais visto e comentado foi justamente um drible!
Foi como se a torcida dissesse:
- Gol a gente vê toda hora!... Mas, drible como aquele...
Jogada inédita que já nasceu lembrando música! Inicialmente o Robinho chamou a jogada de "Um pra lá, dois pra cá!" muito bom! Pois foi o jogador adversário (um) pra lá e a bola e o dono da bola (dois) pra cá! Na Globo o Galvão Bueno lembrou-se no ato de um grande sucesso de João Bosco e Aldir Blanc na voz de Elis Regina, "Dois pra lá, dois pra cá" (1975). Ele citou até o nome dos compositores! É pra ver como essa canção foi marcante nos anos 70. E o Robinho pedalando em frente àquele João bem que poderia ter começado a cantar como a Elis:
- "Sentindo frio em minha alma... te convidei pra dançar..." e o marcador dançou...
Mas não foi só essa música que dançou na memória. Aliás, a mesma "luz repentina inexplicável" foi recebida por Chico quando criou uma linha de ataque imaginária e mitológica na canção "O Futebol" (1989) - que também traz uma expressão evocada na noite da consagração do drible do Robinho na linha do Equador: "Parafusar algum João"...
A expressão: - “Parafusar João”, nasceu das jogadas mitológicas do anjo das pernas tortas, Mané Garrincha, que com seus garranchos "parafusava" qualquer João que o marcasse. O marcador de Mané era sempre um “João” qualquer que ficava lá, parafusado no campo, sem qualquer reação, enquanto o anjo recebia a “luz repentina inexplicável” e passava voando com a bola levada por suas pernas tortas...
Em entrevista ao repórter Geneton Moraes Neto, de onde a epígrafe desse post foi extraída, Chico constata que a música e o futebol permitem atos de criação instantâneos, que fascinam e encantam.
A ídéia do criador ginga quando cria...
E a nossa fica lá, parafusada, gingando no lance do criador...
recebendo aquela luz repentina e inexplicável...
Robinho foi essa semana a encarnação dessa frase de Chico Buarque. Em uma partida com Maracanã lotado e 5 gols marcados, o lance mais visto e comentado foi justamente um drible!
Foi como se a torcida dissesse:
- Gol a gente vê toda hora!... Mas, drible como aquele...
Jogada inédita que já nasceu lembrando música! Inicialmente o Robinho chamou a jogada de "Um pra lá, dois pra cá!" muito bom! Pois foi o jogador adversário (um) pra lá e a bola e o dono da bola (dois) pra cá! Na Globo o Galvão Bueno lembrou-se no ato de um grande sucesso de João Bosco e Aldir Blanc na voz de Elis Regina, "Dois pra lá, dois pra cá" (1975). Ele citou até o nome dos compositores! É pra ver como essa canção foi marcante nos anos 70. E o Robinho pedalando em frente àquele João bem que poderia ter começado a cantar como a Elis:
- "Sentindo frio em minha alma... te convidei pra dançar..." e o marcador dançou...
Mas não foi só essa música que dançou na memória. Aliás, a mesma "luz repentina inexplicável" foi recebida por Chico quando criou uma linha de ataque imaginária e mitológica na canção "O Futebol" (1989) - que também traz uma expressão evocada na noite da consagração do drible do Robinho na linha do Equador: "Parafusar algum João"...
| "O Futebol" (1989) - Chico Buarque Para estufar esse filó Como eu sonhei Só Se eu fosse o Rei Para tirar efeito igual Ao jogador Qual Compositor Para aplicar uma firula exata Que pintor Para emplacar em que pinacoteca, nega Pintura mais fundamental Que um chute a gol Com precisão De flecha e folha seca Parafusar algum joão Na lateral Não Quando é fatal Para avisar a finta enfim Quando não é Sim No contrapé Para avançar na vaga geometria O corredor Na paralela do impossível, minha nega No sentimento diagonal Do homem-gol Rasgando o chão E costurando a linha Parábola do homem comum Roçando o céu Um Senhor chapéu Para delírio das gerais No coliseu Mas Que rei sou eu Para anular a natural catimba Do cantor Paralisando esta canção capenga, nega Para captar o visual De um chute a gol E a emoção Da idéia quando ginga (Para Mané para Didi para Mané Mané para Didi para Mané para Didi para Pagão para Pelé e Canhoteiro) |
A expressão: - “Parafusar João”, nasceu das jogadas mitológicas do anjo das pernas tortas, Mané Garrincha, que com seus garranchos "parafusava" qualquer João que o marcasse. O marcador de Mané era sempre um “João” qualquer que ficava lá, parafusado no campo, sem qualquer reação, enquanto o anjo recebia a “luz repentina inexplicável” e passava voando com a bola levada por suas pernas tortas...
Em entrevista ao repórter Geneton Moraes Neto, de onde a epígrafe desse post foi extraída, Chico constata que a música e o futebol permitem atos de criação instantâneos, que fascinam e encantam.
A ídéia do criador ginga quando cria...
E a nossa fica lá, parafusada, gingando no lance do criador...
recebendo aquela luz repentina e inexplicável...
quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Eu tinha 5 anos na Copa de 1970. Mesmo assim lembro-me do clima de festa. Minha mãe, grávida de meu segundo irmão, querendo arrumar logo a casa porque meu pai chegaria mais cedo do trabalho. Afinal o Brasil ia jogar na televisão e isso era uma coisa especial.
Aliás, o filme será muito mais especial para essa geração da qual faço parte - que tinha de uns 5 a uns 15 anos nesses tempos do “Milagre Brasileiro”. A passagem do tempo é impressionante, experiência pessoal e única. Aos poucos vamos assistindo nossas lembranças pessoais de infância se transforarem em parte da memória coletiva do Brasil contemporâneo. O interior do fusca, a tv preto e branco, a antena com Bom-Bril, o Sugismundo, o álbum de figurinhas, o jogo de botão, o golaço, Pelé, Tostão, Aero Willis, DKW e ditadura. Tudo está presente nas cenas do filme e em nossas lembranças.
O cuidado com os detalhes cenográficos, a atuação das crianças, o roteiro impecável, tudo no filme impressiona. Além de uma leveza e sensibilidade original, pois, apesar do tema pesado, o filme se recusa à provocação do choro fácil ou a mais uma cena de tortura, tão comum em filmes sobre essa época.
A copa de 70 foi a primeira que o Brasil assistiu pela televisão e isso teve um impacto memorável. A música "Pra Frente Brasil" de Miguel Gustavo é até hoje lembrada e cantada por muitos. O coro de assobios da gravação original foi uma solução genial e inconfundível - além de ser bem difícil de imitar... Depois dessa música sempre lembramos a população do Brasil em 1970: 90 milhões. Hoje somos o dobro de pessoas em ação, mas ninguém atualiza esse número quando canta, a exemplo do Jota Quest que num lance de oportunismo gravou a música para a Copa de 2006.
| "Pra frente Brasil" (1970) - Miguel Gustavo Noventa milhões em ação, Pra frente Brasil... do meu coração Todos juntos vamos Pra frente Brasil, Salve a Seleção! De repente é aquela corrente pra frente, Parece que todo o Brasil deu a mão... Todos ligados na mesma emoção... Tudo é um só coração! Todos juntos vamos pra frente Brasil, Brasil! Salve a Seleção !!! (bis) |
Os filmes nos ajudam a pensar nossa experiência de mundo. Excitam nossa memória e imaginação. A ‘Copa de 70’ já tem mais uma referência obrigatória de arte e memória. E como na canção que comemora... Não me furto à vontade de terminar cantando o finalzinho do “Parabéns pra você”, com a empolgação de um menino: - Rá-tim-bum! Cao Hamburger, Cao Hamburger!
Ah! O filme foi escolhido para representar o Brasil na luta por uma vaga para o Oscar 2008. Houve quem preferisse o polêmico 'Tropa de Elite', mas a Academia de Hollywood não gosta de violência e talvez tenha uma simpatia especial pelos velhinhos do Brooklim paulistano! Shalom!
O ano em que meus pais saíram de férias
sexta-feira, 28 de setembro de 2007
PEIDEI mas não fui eu...

O tempo do lobo bobo já era!
João Luís Woerdenbag Filho, vulgo Lobão, deu essa semana uma aula de marketing pessoal. De camiseta preta com a frase branca "PEIDEI, mas não fui eu", foi à TV Senado, a uma rádio – do exército! - em Brasília e ao Programa do Jô. À primeira vista a camiseta incomoda como um pum. Quando ele explica que é por causa do contexto político atual, a camiseta preta ganha um status menos bunda e fica mais cabeça. Segundo ele, o choque é muito maior do que o batido "nariz de palhaço", ou o carola "dignidade já!", ou o brochante "cansei".
Assisti à entrevista no Jô (25/09/2007) e claro que só se falou da tal camiseta e do momento político que estamos vivendo. Aliás, com essa conotação política, a camiseta seria oportuna em quase todos os momentos da história do Brasil. Lobão disse ainda que o PEIDEI é o embrião de um partido político, o PMNFE(Peidei, mas não fui eu), e que no próximo carnaval vai ter o bloco do PEIDEI. Segundo ele, só mesmo com muita galhofa podemos enfrentar os disparates da política nacional.
Então ele deu asas à sua imaginação galhofeira! Pegou a melodia de "O que será" de Chico Buarque e compôs um imbróglio nervoso, que ele disse impressionar pela prosódia... Depois fez um convite público ao Chico, ao Milton e ao Caetano para gravarem com ele! Os quatro cantando juntos! Isso logo depois de ter dito que a 'esquerda musical' (sic!) desse país estava meio calada...
Ah! Ele também está lançando o seu Acústico MTV - hahá! Depois de muito brigar com gravadoras e tentar soluções inovadoras como vender cd em banca de jornal; depois de se tornar um dos caras que mais entendem de custo e distribuição de cds no Brasil; Lobão volta para as 'velhas' mídias que lhe possibilitam uma visibilidade muito maior. Visibilidade essa que ele consegue ampliar... como quem solta um pum... discreto, mas causando muito barulho logo em seguida.
"Ó quem será que peidar" (2007) que tire o cu da reta e não demore com a mão amarela, se inocente que sem prova concreta não dá pra pegar e todos os trambiques irão te salvar com todos os auxílios da presidência e todo benefício da leniência de todos os decretos que te aliviam pois quem não tem vergonha quando chafurda não entende o desespero de coisa alguma pois quem não tem decoro, nem nunca terá porque não dá castigo. Ó quem será que peidar que apague a luz dos aeroportos pra debaixo do tapete todos os mortos e vem gente me pedindo: relaxa e goza colhendo os impostos para a mesada na eterna incompetência do governante impondo com orgulho a falcatrua a dança do larápio que ganha a rua enquanto que a gente a se perguntar aonde é que a gente então vai parar e se não tem remédio, pra que implorar a quem não dá ouvido Ó quem será que peidar desfaça o flagrante dos mensaleiros e faça um desagravo pros brasileiros é só um feriado que a gente esquece se benza duas vezes com a mão na massa com a cara de enlevo ninguém vai notar triplique o dinheiro pra olimpíada com a cara de tacho que te consagra no próximo vexame ninguém vai lembrar não há merecimento nem nunca haverá por que ninguém exige nem exigirá tua cabeça a prêmio.
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Ele cantando até que fica melhor do que lido... mas assim como a camiseta... só impressiona a primeira vez. Além do que a métrica é toda torta... putz! É a tal estética ‘rock’n roll’...
Porém, gostei da entrevista e gostei da camiseta. A MTV também deve ter adorado!
O Chico Buarque é que não deve ter gostado muito de ter sido chamado de 'esquerda musical'...
No neoliberalismo global mundializado até indignação vira marketing.
Nessa vida bandida, meus heróis morreram de overdose, na velocidade da queda...
Click e Compre a Camiseta!
E logo depois já rolava no youtube...
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