quarta-feira, 7 de março de 2012

Dama de Ferro, a História no Cinema.


O filme Dama de Ferro me fez chorar a dor das alucinações dos velhinhos que entraram para a história mas ainda não saíram da vida...

Sala escura, tela preta, o filme bem poderia ter começado com a epígrafe famosa de James Joyce, "A história é um pesadelo do qual tentamos acordar".

Maryl Streep nos impõe sua atuação impecável desde o início, mas também gostei muito da atriz que faz a jovem Margareth. O projetor também lançou um pouco de luz sobre minhas memórias juvenis, isso porque eu comecei a prestar alguma atenção aos assuntos políticos justamente no período em que Margareth Tatcher foi a primeira e até agora única primeira-ministra britânica.

Apenas 11 anos, esse período de 1979 até 1990, e o mundo foi mudado de maneira irreversível. A URSS acabou e com ela a Guerra Fria. O comunismo foi varrido do leste-europeu. O neoliberalismo econômico, ainda em moda por aí, passou a ser o principal modelo adotado, em maior ou menor medida, por países do mundo inteiro. As utopias socialistas foram desbaratadas e o Estado aliou-se ao capital da maneira mais profunda e contundente do que nunca antes na história.

O filme utiliza muito bem as assustadoras imagens de época: protestos no Reino Unido (o que é aquela multidão em um balé de força com a polícia?!), atentados do IRA , Guerra das Malvinas e até uma delirante dança entre Reagan, então presidente dos EUA e Tatcher, então o 'homem' mais poderoso da Inglaterra, no dizer do próprio ex-cowboy do cinema americano.

O enredo em retrospectiva - como convém à memória e às alucinações - dá um bom ritmo ao filme. O humor inglês ficou por conta do personagem 'marido de Tatcher', que se foi mesmo daquele jeito, deve ter sido o antídoto histriônico a uma dama sisuda a qual os soviéticos bem apelidaram "de ferro". Mas como contrapeso o enredo também mostra, uma mãe aflita, mandando cartas de próprio punho, para o conforto de outras mães que perderam seus filhos na Guerra das Malvinas.

Acho que a última vez que vi a baronesa Margaret Tatcher em uma aparição pública foi, se não me engano, no casamento da realeza britânica do ano retrasado. Com a saúde debilitada, a Tatcher real não deve ter tido o prazer, ou desprazer, de ver a versão cinematográfica de sua vida, que mesmo em alguns momentos um tanto piegas, como convém às biografias, pelo menos vale o ingresso e a tarde refrigerada em oposição à terrível canícula que curtia o ar lá fora da sala escura.

quinta-feira, 1 de março de 2012

A Pré-história


Para baixar os slides da aula clique em HG.2. Pré-história.

Apesar de constar no programa do Ensino Médio, questões sobre a Pré-história são bem raras nos vestibulares e no ENEM.

O principal é atentar para as mudanças que ocorreram na passagem do Paleolítico (pedra lascada) para o Neolítico (pedra polida). A humanidade no período Neolítico descobriu a domesticação de plantas e animais. Alguns dizem que essa foi realmente a primeira revolução da humanidade pois permitiu a sedentarização e a organização das primeiras civilizações, já na Idade dos Metais.

A paleontologia é uma das ciências que mais se desenvolveram nos últimos anos. Em 2001 foi encontrado o provável ancestral mais antigo do ser humano, com cerca de 7 milhões de anos.

Ano passado foi descoberto que o Homo Sapiens manteve relações sexuais com os Neandertais e por isso carregamos 2,5 % de genes dessa espécie extinta.

É inacreditável como os criacionistas não conseguem ver a 'partícula de Deus' na evolução das espécies.

O pai da Lucy!

Yves Coppens é um dos paleontólogos mais respeitados no mundo. Ele fazia parte do grupo de paleontólogos que descobriu o mais famoso fóssil de Australophitecus afarensis, datado em 3,2 milhões de anos, encontrado nas escavações na Etiópia em 1974. No acampamento estava tocando a canção "Lucy in the sky with diamonds" dos Beatles, e como eles descobriram que se tratava de um espécime feminino, apelidaram o fóssil o fóssil de "Lucy".

Veja esse vídeo "en français" com o simpático professor Yves Coppens explicando nossas origens:





Música das cavernas!

É bem divertida essa canção sobre o "Homem de Cro-Magnon" com o irreverente grupo francês "Les Quatres Barbus" da década de 40 ou 50.





Tradução livre da canção "Homem de Cro-Magnon" feita por mim mesmo.
A letra original está nos comentários do vídeo do youtube:

"Foi na época da pré-história
Há dois ou 300 mil anos atrás
Veio ao mundo um ser bizarro
Parente próximo do orangotango
Sentado sobre as patas traseiras
Vestindo uma cueca de pele de búfalo
Ele iria conquistar a terra,
Foi o homem de Cro-Magnon.
{Refrão:}
Homem de Cro,
Homem de Ma, homem de Gnon,
O Home de Cro-Magnon pon pon
{X2}
Homem de Cro, de Magnon
Isso não é treta
Homem de Cro-Magnon
Pon pon.

Armado com um machado de pedra,
E com sua faca de pedra também,
Ele caçava o urso e a pantera
Apesar do medo que tinha.
Diante de um diplodocus com raiva
Ele era mesmo um pouco franzino
Disse então em sua linguagem:
Rapidamente inventem o fuzil.

Ele era um poeta em seu tempo livre
Disse emocionado à sua esposa,
Você é linda como um dinossauro
Você parece Lollobrigida*
Se você quiser ver os postais,
Na minha caverna do andar de cima,
Vou te mostrar as pinturas rupestres
Onde verás que eu sou mesmo um Picasso.

Duzentos mil anos depois sobre a Terra
Como admiramos nossos ancestrais
Os bosques, os campos e os rios
Mas se ele voltasse que decepção
Vendo-nos suar seis dias por semana
Ele nos diria sem rodeios:
Meus descendentes são mesmo umas bestas
Por terem inventado o trabalho!"

* Gina Lollobrigida: atriz italiana dos anos 40 e 50 com 'beaucoup de sex appeal'




Site do Museu de História Natural da Inglaterra


Compare os crânios de diversos primatas entre eles o Homo sapiens sapiens no site do
Museu de História Natural da Inglaterra. Aliás, mesmo sendo em inglês, vale a pena navegar pelos links do museu pois existem muitos vídeos sobre evolução e imagens interativas.



Decifrado o genoma do Neandertal!

O cientista sueco Svante Pääbo comemora a decifração do genoma do neandertal.

"Neandertais sobrevivem em nós."

Leia a notícia no site da folha.


Leia a notícia em inglês no site da BBC.

Compare as diferenças entre as duas espécies:


Veja esse simpático modelo de Neanderthal... Temos 2,5 %  dele! E considerando a pele vermelha e os cabelos ralos eu acho até que tenho uns quase 92,7 % dele! Hehe!




terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Benvindos ao nosso curso de 2012!



Queridos alunos,

A partir desse post, este blog História em Pauta passa a hospedar nossas aulas de História, Filosofia e Atualidades. O blog pretende ser também um canal aberto de comunicação, informação e educação voltado sobretudo para os vestibulandos. Contamos também com as sugestões de links, notícias, vídeos, charges, livros, filmes e o que mais aguçe nossa curiosidade e criatividade.

Espero que 2012 seja também um ótimo ano de estudos e realizações para todos e que nossas metas propostas sejam alcançadas.

Por falar em metas, continuo estudando francês na Alliance Française de SJC. Digo isso porque iniciei minha francofilia pela web. Quem quiser fazer o primeiro ano de francês e sentir-se estudando na Universidade do Texas pode acessar o site Français Interactif. Imprima a apostila e siga as aulas! Em um ano, com uns 20 minutos por dia, você estará entendendo a língua de Asterix e de Tintin! Ah! Tudo sem custo algum!

Os sites que eu tenho frequentado atualmente são o Khan Academy e o Study Bass.

O Khan Academy é realmente sensacional, como eu já disse em sala é possível fazer um login e seguir uma sequência de exercícios que vão desde a mais simples adição até a mais complexa derivação! E se você não se lembrar de algum conceito matemático é só assistir a aula correspondente, que pode durar até mesmo mínimos 10 minutos! Tenho me maravilhado com as explicações desse gênio chamado Salman Khan! Ah! E também tem aula de Química, Biologia, História, Finanças, Cidadania, Artes, etc. É realmente inacreditável. E de quebra você ainda vai ficando craque em entender inglês!

Meu instrumento musical este ano parece mesmo que será o contrabaixo! Estou encantado! Descobri um site maravilhoso que não só ensina teoria musical, mas também toda a parte prática do instrumento. Pra quem é iniciante total acho que o site não chega a dispensar um professor, mas quem por exemplo já toca um pouco de violão, como eu, fica bem fácil avançar no instrumento. Pra os interessados vale muito a visita: www.studybass.com.

O mar era a web dos gregos. Alcançavam outros mundos, juntavam ideias, formavam conceitos, ganhavam a vida. Hoje podemos navegar sem sair de casa, com custo e risco muito menor, por assuntos muito mais variados, porém, o que move o navegador ainda é a curiosidade.

Um ótimo ano paratodos!

Delmonte

domingo, 29 de agosto de 2010

'Dzi Croquettes'... Putz!


O passado me passou!

Uma das melhores surpresas desse ano foi o documentário sobre esse tão escondido 'Dzi Croquettes'! Claro que é a gênese de quase tudo que ainda está bombando aí hoje, dos 'Cassetas' à 'Gaiola das Cabeçudas'. E tudo em plena ditadura! Artistas de saia e purpurina em época de chumbo e choque.

E teve ainda pela mesma época: 'Hair', 'Secos e Molhados', 'Odara', 'Dancing Days', 'Trigresa', 'Frenéticas' e 'Baila Comigo'!


Entrevista com os diretores do documentário "Dzi Croquettes"


Veja também o site e a notícia:

- o site: www.dzicroquettes.com

- a notícia no estadão

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Maria Amélia Cesário Alvim Buarque de Holanda

A matriarca dos Buarque de Holanda dormiu pra sempre aos 100 anos!

A mulher do Sérgio Buarque, a mãe do Chico, da Miúcha, da Cristina, da Ana... A avó da Bebel e 'mãe de força' de tantos outros talentos...

Como disse o Paulo Vanzolini: - É impressionante! Naquela família ninguém deu errado!

Lembro-me que uma vez conversei muito rapidinho com ela, conversa fácil e risonha - e olha que ela falava de política! Bem disposta e lúcida apesar dos já quase 80 anos bem vividos até então.

Imagine criar sete filhos com o marido professor, intelectual e boêmio... O Antônio Cândido no filme "Raízes do Brasil - uma cinebiografia de Sérgio Buarque" de Nélson Pereira dos Santos, bem disse que o maior sinal de inteligência de Sérgio foi ter se casado com Maria Amélia!

Que seu exemplo de força, alegria e valores humanitários não seja jamais esquecido. Descanse em paz, Memélia.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Cine Macalé

Sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010, Jards Macalé, violão, banquinho e dvd...

Projeto do SESC-SJC - seu som daria um filme. Idéia boa essa! O Jards cantou, fez a gente cantar "Diz que fui por aí" e "Eu sou o samba"! A platéia transformada em backing vocal não decepcionou. A memória popular é realmente uma coisa incrível. Acho que se me perguntassem dessa música eu jamais saberia cantá-la sozinho. Não sei como é que as pessoas conseguiram... E eu também! Depois o "Eu sou o samba" foi mais fácil, porém, acertar um tom que fosse confortável deu trabalho. Mas o Jards rapidinho achou o tom melhor!

Cantou "Conceição" como se fosse o João Gilberto! Eu que não gostava dessa música agora daria um milhão... No meio de não sei qual outra canção ouviu-se um alarme e luzes! Claro que ele aproveitou pra dizer que a polícia até que tinha demorado! Mas na verdade deu um pouco de vergonha dessas coisas técnicas que atropelam a arte... Depois ficamos sabendo que foi o alarme de fumaça... Alguém acendeu um cigarro imaginário...

Já no camarim conversamos sobre o "Banquete dos Mendigos" que está preso na gravadora RCA! Ele bem que gostaria de relançar esse disco, mas a gravadora não libera. Um absurdo as grandes gravadoras multinacionais poderem fazer esse tipo de coisa com uma propriedade que é claro que é mais de quem fez do que de de quem gravou... Disse Jards: - Temos que piratear o banquete, porra!

A minha dúvida então foi satisfeita. Fico sabendo que o "Vamos a la playa" foi lançado em um compacto simples, apenas para promover o álbum "Contrastes". Do outro lado do single, "Blue Suede Shoes", que aliás foi o bis junto com a intitulada "Mal Secreto", depois de uma voz de mulher que gritou com uma voz caliente do meio do povo: - Canta Mal Secreto, porr favorrr!

Pensei que ele nem tinha ouvido... Mas o ouvido de Macalé é musical que não é normal! Salve Jards!

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Villa Lobos, Carmem Miranda & Amy Winehouse

Ah! 2009... Já deixou saudades...
100 de Carmem, 50 de Villa e six de Amy...

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Ontem, 20 anos do fim do Muro

nove de novembro de dois mil e nove
o nove se renova em novidade
o novo sempre novo de novo inova
o velho revela a velha histoire sem muita análise
lógico que não só imagens mil valem palavras



o muro que mais escondia hoje revela-se
murro em ponta-pé de faca de dois gumes
que ruam mais muros de outras tantas ruas

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

11/09/2001

A imagem do início do século XXI está gravada.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Abram alas que Gegê vai passar!

Hoje fez 55 anos que Getúlio Vargas saiu da vida pra entrar na história e o velhinho continua sendo capa de jornal. Os jornais de hoje deram a notícia, foram encontrados centenas de 'bilhetinhos' que ele despachava pra Lourival Fontes, chefe da casa civil de seu governo de 1951 a 1954.

(continuo depois...)

sábado, 22 de agosto de 2009

Da série Historiadores - Nicolau Sevcenko.

Nicolau Sevcenko é um historiador brasileiro. Falou russo antes de português, vendeu sucata, jogou handebol (na seleção brasileira!) e conviveu com Sérgio Buarque e Eric Hobsbawm.

Pesquisador precoce e genial de inúmeras façanhas, ele tem uma história de vida das mais incríveis!

Confira entrevista na Revista de História da Biblioteca Nacional.

Atualmente leciona em Harvard. E considerando sua origem e brasilidade... Isso é sem dúvida mais uma façanha!

Para uma rápida apresentação leia artigo recente do site e-educador.

Pra terminar veja uma interessante experiência de um texto de Sevcenko editado com imagens.

domingo, 16 de agosto de 2009

Woodstock!


Os versos de Bob Dylan são misteriosos e inquietantes:
"Alguma coisa está acontecendo
e você não direito sabe o que é..."

Parecia ser esse o clima que contagiava a juventude dos sixties. Algo parecido com o que você sente sábado à noite quando não programou nada, o telefone não toca, e a sensação aumenta: - Ficar em casa é definitivamente perda de tempo...

Pois a idéia de reunir música e gente numa fazenda nos arredores de Nova Iorque era inédita. Esperava-se umas 50 mil pessoas... Apareceram meio milhão de jovens!
Três dias de som e paz! Nenhuma morte...
Ao contrário, dizem que alguns bebês nasceram naquelas barracas... Imaginem quantos da geração seguinte foram gerados lá!

Um dos pontos altos da apresentação foi Jimmy Hendrix. De longe, o artista que mais conseguiu encarnar o espírito daqueles dias. Um virtuose da guitarra. Um xamã que se transformava em seu instrumento com a cor de sua época. Sua apresentação como sempre foi 'uma experiência'. Apesar da banda recém formada ("Gypsy Suns and Rainbows"), da visível falta de ensaio e da dose extra de LSD. Mas a arte do cara era maior que tudo... Are you experienced? E você, já experimentou?

Rolava a guerra do Vietnã desde 1954. A Guerra Fria em sua face mais cruel. Os EUA mandavam tropas para conter os Vietcongs, guerrilheiros do Vietnã do Norte apoiados pela URSS. O auge do tal mundo bipolar: capitalistas x socialistas. Os jovens americanos e vietnamitas morriam aos milhares numa guerra de guerrilha que prometia arrastar ainda muitos cadáveres. Porém, as imagens da guerra acabavam aparecendo nas revistas, na televisão e nos jornais. A opinião pública aos poucos se indignava contra aquelas atrocidades.

Então Jimmy pega sua Fender Stratocaster e começa a tocar "Star Spangled Banner", o hino americano, em pleno show de rock? Deve ter sido um estranhamento... Momento cívico em show de doidões? Mas aí o cara começa a fazer uns sons bem estranhos! E olha que ele não tinha a pedaleira que qualquer garoto que toca guitarra hoje tem.

Logo, todos puderam ouvir barulhos de bombas? O som dos rasantes dos caças MIG-25 lançando bombas! E as cordas da guitarra vibravam em bombas e em gritos e em sirenes! E tudo enxertado no hino do país dono dos caças! Foi um momento sublime... Nunca um protesto musical foi tão contundente, tão arrasador, tão silencioso, tão barulhento! Nem uma palavra... Apenas sons, que simbolizavam o sentimento de indignação de um jovem, que sintonizava e sintetizava a melhor intenção de todos. E sem mais melodramas, um corte rápido, o acorde final e o ataque das cordas para o próximo solo!



Jimmy morreu no ano seguinte, antes dos trinta anos! Não viu o fim da guerra que só acabou em 1975. Mas essa imagem de jovens brilhantes brilhando ficou... Para nos inspirar contra o poder desumano. E a favor de mensagens que caiam como bombas, para construir a paz entre os países e deixar o som rolar melhor... It's only rock'n roll but I liked...

Poucos artistas conseguiram resumir a indignação existencial humana com a força criativa que a obra de arte permite. Assim como Edvard Munck na tela "O Grito" de 1893, um jovem guitarrista de Seatle compôs uma obra de arte imediata, condensada, poderosa. Ao vivo. De improviso. Com a matéria-prima de som e fúria, a melhor de sua geração. Sintetizando em som a indignação humana... E o mundo nunca mais seria o mesmo... E eu também achei lindo...

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Há 4 décadas do pequeno passo...

Quando Louis Armstrong disse a frase famosa: "Um pequeno passo para um homem, um grande passo para a humanidade" havia muito mais luas nas canções.



Deu no New York Times

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Um homem de moral!



Um querido amigo de Brasília me apresentou e me fez cativo da obra de Paulo Vanzolini. Eu já conhecia suas músicas mais conhecidas como “Ronda”, “Volta por cima”, “Praça Clóvis", “Cravo Branco”, "Boca da Noite", "Cuitelinho" e algumas outras... Mas aí o meu amigo disse:

- Paulo Vanzolini é o maior compositor brasileiro vivo!

A frase era de soar hiperbólica e provocativa! Porém, só até você entrar no universo musical desse criador incomparável. Por sua paixão pelo falar do povo, sua humildade de sábio e sua memória de tirar o fôlego... Vanzolini é um mestre! E um ilustre desconhecido do grande público, que como ele mesmo diz, conhece mais sua música do que a ele próprio.

Para atribuir a correta importância das notas e letras e averiguar com justiça o alcance do seu fazer poético, talvez bastasse repetir o que o Chico Buarque já disse. Que aprendeu sua arte de compositor com o amigo Paulo Vanzolini. E de fato, podemos encontrar pontos luminares comuns na produção dos dois. O mesmo refinamento estilístico, a mesma ironia sutil e provocativa, a dicção popular escandida e escondida pela erudição disfarçada de senso comum e um acabamento estético que faz tudo soar simples e harmonioso, como deve ser uma verdadeira obra prima.

Contudo, Vanzolini diz que não faz música popular, porque desde menino lê literatura, já tendo inclusive tentado praticar. Escreveu o seu “Tempos de cabo” do exército na Segunda Guerra em forma de poesia e mais algumas teses científicas. O outro, um Buarque de Holanda, tornou-se realmente um literato consagrado e popular, haja visto o seu “Leite Derramado” com tiragem inicial de 70 mil livros! Pois é! O Chico deve estar vendendo mais livro do que disco novo! Vai ser assim no livro como no samba!

E assim como Sócrates não se considerava um sábio, e só sabia que nada sabia, Vanzolini nem se considera um músico, preferindo ser definido como um herpetólogo de profissão! Ou seja, um cientista do ramo da zoologia que estuda os répteis... Mas o que dizer de um rapaz que estudou medicina na USP só para ter uma sólida formação científica, já que sempre desejou estudar répteis! Fez mestrado em Harvard e dirigiu o Museu de Zoologia da USP por décadas?... Isso tudo sem contar a boemia desregrada dos tempos de estudante uspiano, quando fez – com apenas 18 anos (!) - uma das canções mais conhecidas do repertório boêmio paulista: “Ronda”. “De noite eu rondo a cidade a te procurar...”

“Ronda” deve ser, ao lado de “Sampa” e “Trem das Onze”, uma das músicas que melhor definiram o ‘espírito’ da cidade de São Paulo. Aliás, o próprio Caetano bebeu na fonte vanzolínica pra compor sua homenagem pra Sampa. Isso sem falar da conhecida “Volta por cima” (cantada pelo vozeirão de Paulo Marquez no início desse post), uma genuína criação de mestre, coisas que pouquíssimos autores conseguem fazer: como Noel Rosa e Dorival Caymmi. Tão ao gosto popular que parece realmente uma canção anônima. Facílima de aprender, parece que já vem pré-gravada em nosso DNA. E com o privilégio raro de inventar uma expressão que passou para a 'boca do povo’ como sinônimo de superação: - Dar a volta por cima!

Um divertido exemplo de preciosismo estético encontramos no despretensioso sambinha “Napoleão”, aqui em gravação de Carlinhos Vergueiro para o disco Acerto de Contas volume 1 (ao todo foram 4 volumes do selo Biscoito Fino).



"Napoleão" (Paulo Vanzolini)

Pondo a modéstia de parte
É Napoleão Bonaparte e eu
Que sabemos na verdade
O quanto dói uma saudade

Cada qual de nós pegou o seu
Ele em Waterllo e eu
Num portão até que bem iluminado

Quanta vitória no passado
Quanta página na história
Que derrota tão inglória

Mas das contas no final
Meu pequeno caporal
Sou eu quem mereço pena

Tu tiveste Santa Helena
E minha santinha morena
Napoleão, me castiga e me condena
Com esta separação



Sem querer explicar o óbvio, é deveras inusitado o pernosticismo do namorado exagerado que compara o seu sofrer ao de Napoleão, concluindo porém, que ele teria sofrido mais que o imperador francês! Pois, o general depois de Waterllo teve Santa Helena e ele nem a “santinha morena”...

Além da precisão histórica e de toda a questão de política de alcova que um amor suscita, quedo-me impressionado com o achado do poeta na frase - “meu pequeno caporal”-, pois, como nos ensina o “Houaiss”:

"Caporal: 1 Regionalismo: Portugal. Diacronismo: antigo. 2 Regionalismo: Brasil. Certa variedade de tabaco picado, de má qualidade.

Etimologia
fr. caporal (1571) 'militar menos graduado', (1841) ' tabaco de caporal', der. do it. caporale 'principal', termo militar desde a primeira metade do sXIV, este der. de capo 'cabeça, chefe', sob o modelo de pettorale, temporale."

Ora, sabemos que Napoleão tinha apenas 1,58m, sendo realmente pequeno, mas, tratá-lo por ‘meu pequeno caporal’, como vimos, militar menos graduado e chefe, instaura um duplo sentido de respeito e intimidade, porém ao mesmo tempo desdém e despeito, ou seja, a palavra perfeita para o tom da canção. Isso ilustra o quanto uma canção pode esconder uma lapidação de jóia rara debaixo de sua aparente simplicidade. Fico pensando o quanto Vanzolini deve ter usado essa palavra em seus tempos de cabo na Segunda Guerra...

Também foi lançado este ano e ainda está nos cinemas de São Paulo o filme “Um homem de moral” de Ricardo Dias, que traz nosso professor de répteis falando sua prosa fácil e contando histórias de São Paulo e da Amazônia. Pontuando a conversa assistimos a alguns momentos da gravação do "Acerto de Contas" em 2004, com um grupo respeitável de 'cobras' esmerando-se em gravar quase toda a obra do mestre dos répteis, que vive entre a floresta e a cidade, entre lagartos e sambas. E vamos sabendo de sua vida como zoólogo, dos cálculos de impacto ambiental, da militância ecológica, da resistência política e dos livros comprados com dinheiro de direito autoral e doados para a biblioteca do Museu de Zoologia da USP! Ao final, mesmo que ele não se considere verdadeiramente um compositor de profissão, mas, assim no samba como na vida, quem poderia ter erigido maior moral?

Um pouco mais sobre Vanzolini:

- Palpite de Antônio Cândido.

- Entrevista com o autor do filme “Um homem de moral”.

Trailer do filme:

domingo, 3 de maio de 2009

Augusto Boal

Augusto Boal faleceu no Rio de Janeiro com 78 anos de idade. Ainda esse ano eu li que ele recebera um prêmio do governo francês, ou seja, continuava ativo e presente como devemos ser em qualquer idade. Boal foi uma das figuras mais importantes para o teatro brasileiro dos últimos 50 anos.... etc

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Buffalo Soldier!


Michelle Obama é a primeira primeira dama negra dos States! Barack Obama, 'buffalo soldier', seduz pela palavra. Como os velhos bardos mitológicos e poetas épicos. Feitiço havaiano. Por isso até o conservador Elvis Presley iria curtir. Walt Whitman branco e homossexual iria curtir. Bob Marley negro e heterossexual também curtiria. Muito. Assim como Castro Alves, José do Patrocínio, Machado de Assis e Monteiro Lobato.

Dizem que as épocas são de fato gestoras de seus próprios líderes. Para além da aceitação popular - sem precedentes no mundo - o fato dele ter começado a carreira fazendo trabalhos sociais é uma diferença interessante para esses tempos cruéis. Novas lideranças ainda podem surgir de lugares inusitados e o que impressiona é a força que a política ganha. Justamente num momento em que a economia se encontra tão debilitada. Nem o esporte, nem a arte, nem a religião consegue nos unir dessa maneira. Justamente o que parece mais nos separar, justamente o que não se discute. A força está na vontade, na palavra e na esperança.

Mas há quem diga que com Barack ou sem Barack estamos na mesma. Que tudo é apenas um disfarce do imperialismo. Que o otimista é um pessimista mal informado e que é preciso que as coisas mudem para continuarem como sempre foram. E que sonhar também pode tornar-se um pesadelo... Tudo isso dito, voltemos ao fenômeno Obama.

Conquistou um máximo de eleitores jovens. Fez campanha usando novas mídias, gente nova e não desprezou também velhos recursos e conchavos. Em sua posse o google e outros sites despencaram a frequência. Em compensação o twitter bombou! Todos queriam dizer onde estavam e o que sentiam. Apesar do frio de rachar... Discurso impecável. Pra tempos de crise, escrito por um jovem de 28 anos a partir de conversas com o presidente eleito. Depois de toda a euforia do "young power" dos anos 60, passados 40 anos de 1968, enfim parece que nessa eleição os jovens finalmente foram decisivos. Assim como Michelle, ma belle.

John Lennon disse uma vez que a mulher era o negro do planeta. A maior conquista dessa eleição parece ter acontecido no campo simbólico. É improvável que a dimensão real ultrapasse esse signo sem desgaste. Como o Brasil do tempo de Lulalá! Falando nisso, vocês conhecem o Obameter? Muito interessante! Deveríamos ter um Lulameter também! Seria muito útil além de muito divertido, educativo...

Pra terminar, uma canção também simbólica - de um tempo em que ninguém imaginaria ser possível um presidente negro nos States:


"Buffalo Soldier" (1981)
(Bob Marley - King Sporty)

Buffalo Soldier, Dreadlock Rasta
There was a Buffalo Soldier
In the heart of America
Stolen from Africa, brought to America
Fighting on arrival, fighting for survival

I mean it, when I analyse the stench
To me, it makes a lot of sense
How the Dreadlock Rasta was the Buffalo Soldier
And he was taken from Africa, brought to America
Fighting on arrival, fighting for survival

Said he was a Buffalo Soldier, Dreadlock Rasta
Buffalo Soldier, in the heart of America

If you know your history
Then you would know where you coming from
Then you wouldn't have to ask me
Who the heck do I think I am

I'm just a Buffalo Soldier
In the heart of America
Stolen from Africa, brought to America
Said he was fighting on arrival
Fighting for survival
Said he was a Buffalo Soldier
Win the war for America

Dreadie, woe yoe yoe, woe woe yoe yoe
Woe yoe yoe yo, yo yo woe yo, woe yoe yoe
(repeat)
Buffalo Soldier, trodding through the land
Said he wanna ran, then you wanna hand
Trodding through the land, yea, yea

Said he was a Buffalo Soldier
Win the war for America
Buffalo Soldier, Dreadlock Rasta
Fighting on arrival, fighting for survival
Driven from the mainland
To the heart of the caribbean

Singing, woe yoe yoe, woe woe yoe yoe
Woe yoe yoe yo, yo yo woe yo woe yo yoe
(repeat)

Trodding through San Juan
In the arms of America
Trodding through Jamaica, a Buffalo Soldier
Fighting on arrival, fighting for survival
Buffalo Soldier, Dreadlock Rasta
Woe yoe yoe, woe woe yoe yoe
Woe yoe yeo yo, yo yo woe yo woe yo yoe



sábado, 17 de janeiro de 2009

Maysa, quando canta o coração!


Férias! Também peguei a febre Maysa! Senti-me uma macaca de auditório! Noves fora, não perdi um capítulo! E ainda vim pra internet ver o que estava acontecendo em torno da tal mini-novelinha. Sob vários aspectos, nunca houve nada parecido com essa super-produção global. Um filho - o sr. diretor Monjardim - podendo pagar ao vivo e a cores, com a maior competência, o que devia à mãe artista. E que artistas! Ao final o diretor dedicou o trabalho à mãe e assinou a dedicatória. E apesar de ter sido apenas um flash final, foi comovente.

Nos anos 70 o disco da novela “Estúpido Cupido” não saía da vitrola lá de casa. Mas os hits eram o “Biquini de Bolinha Amarelinha”, “Neurastênico”, “Broto Legal” e as da Celly Campelo, todas alegres e divertidas. Aliás foi por causa dessa novela que passamos a cantar essas músicas dos 60's e adoramos a Celly Campelo. Já na música “Meu mundo caiu” de Maysa a gente pulava, pulava a faixa! Muito deprê pra quem tinha 10 anos de idade e irmãos ainda menores, mas, com o tempo fui gostando cada vez mais daquela voz grave e também dos trombones do arranjo. No fim, até pelo exagero infantil, a música também passou a fazer parte das nossas dublagens performáticas.
Foi assim que Maysa deve ter aparecido pela primeira vez pra toda a minha geração, na trilha da novela “Estúpido Cupido". Uma geração depois e ela reaparece pela mesma tela. Fora isso, não havia discos de Maysa em casa. Não tocava mais no rádio, nem aparecia na TV. Aliás ela ainda estava viva quando a novela foi ao ar. Morreria só em 1977, antes do Elvis Presley, e mais nova que ele também.

Maysa foi parte de uma geração existencialista, pós Segunda Guerra Mundial, quando era chique ser triste. Antes da fenomenal bossa-nova a velha fossa estava bombando. Some-se a isso um coração insatisfeito: - “Mesmo que os cantores sejam falsos como eu serão bonitas, não importa são bonitas as canções” - e uma cantora verdadeira. Assistir o programa foi pra mim o encontro com uma grande artista. Só tenho uma crítica: meteram um intervalo comercial bem no meio da música “Ne me quittes pas”. Desrespeito total! Imagino que o diretor não deve ter gostado nada disso também.

Mas a gente pode se vingar assistindo online a real interpretação:



Aliás, uma rápida volta pela internet e ficamos sabendo que a Globo se arrependeu de ter reduzido para 9 capítulos, pois chegou a alcançar 30 pontos no ibope. Muitos méritos, novos atores - impressionante o trabalho da Larissa Maciel -, muita técnica de todos na interpretação, cenografia, figurino e sonoplastia. Mas o melhor mesmo foi voltar a ouvir Maysa. Fiquei principalmente interessado em suas interpretações de músicas estrangeiras. Não sabia que ela havia gravado “Round Midnight”, tinha esquecido do “Ligth My Fire” e gostei das castelhanas também. Fiz uma seleção só com essas estrangeiras. Salve o player mp3!

E foi navegando atrás de Maysa que aportei em mais uma cantora: Ithamara Koorax - brasileira eleita pela revista Downbeat uma das 5 melhores cantoras de jazz de 2008! E olha que a moça já tem discos desde 1993! Nesses tempos de cantoras da web, como a gente pode passar tanto tempo sem conhecer um trabalho tão interessante como o da Ithamara? Salve, salve as cantoras do rádio! - Que nos chegam pela ficção, pela rede e pelo ouvido... Meu mundo levitou!

algumas da febre Maysa e outros links:
- fotos de Maysa
- Maysa & Amy Whinehouse
- site oficial da minissérie
- entrevista com Manuel Carlos o autor do texto
- entrevista com Ithamara Koorax

sexta-feira, 20 de junho de 2008

When I'm sixty four... You'll be older too!

Deve ter sido bonita a festa, pá! O jovem Chico Buarque fez aniversário ontem! Jovem sim, pois o Velho Chico é outro rio. O Buarque ainda é boleiro. Anda por aí num passo apressado, de tênis e bom humor! O Chico de 64 anos tem mais lenha pra queimar do que a Amazônia!

Assim como os Beatles e os Rolling Stones, Chico é das melhores coisas da cultura do século XX. Assim como os Beatles (When I'm sixty-four) e Caetano Veloso (O Homem Velho), Chico também já refletiu sobre a velhice em suas canções (O Velho - O Velho Francisco). Mas Chico sobreviveu talentosamente, literariamente, visceralmente, a todos os Beatles e Rolling Stones e tantos outros mortos vivos... Time is on his side!
O poeta Leminsky, sempre certo e sensível, dizia que o povo ama seus poetas.



Essa percepção de Leminsky podemos constatar em nós mesmos. Quase todos os dias eu me lembro de um Vinícius de Moraes que vi há tanto tempo na tv. Em branco e preto, são e calvo, Vinícius dizia pra câmera que todos os dias ele pensava nos seus amigos. Todos os dias. E ia citando sem constrangimento de esquecer ninguém: Pixinguinha, Tom Jobim, Chico Buarque, Manuel Bandeira... E por aí ele ia... Eu também vou por aí, e além dos meus caros amigos de sempre - por força das circunstâncias sempre estão distantes -, penso eu também, todos os dias, em nossos artistas. Esses sim sempre pertos, espertos e presentes. Como o Chico Buarque.

A última vez que o vi foi semana passada, no ótimo filme sobre o fotógrafo Evandro Teixeira, "Instantâneos da Realidade". Chico, sempre um gozador, se auto ironiza dizendo que está ficando com a cara dos velhinhos que aparecem nas fotos do Evandro. E o Evandro nem riu! Aliás, o Chico contou a divertida história dessa foto, idéia do Vinícius, claro! Reparem como a luz de Deus cai direto nele!
Nossos artistas acompanham-nos pela vida toda. Maravilham-nos e nos fazem vigia... De toda poesia que entornam no chão. E jamais envelhecem.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Sexo, Orégano e 1968

Ah! Que preguiça de falar ainda mais de 1968... Mas pra não perder a data do post que farei depois nesta data fica então posto. Forever green Luísa...

terça-feira, 13 de maio de 2008

- Bebel, a Redentora!


Todo o 13 de Maio é assim! Os professores de História lembram-se da famosa "Lei Áurea", que hoje está de aniversário. Afinal são 120 anos! E parece que foi ontem...

Como é sabido por todos essa lei aboliu a escravidão no Brasil, porém ela sequer cita a palavra "escravo"!
Tida como retrógrada a lei já foi bastante criticada - e com razão -, por diversas correntes de nossa historiografia. Vamos às críticas mais correntes:

- O Brasil foi o último país da América, e um dos últimos do mundo a abolir a escravidão. Só por isso já seria difícil defender a posição da Monarquia, que garantiu para os latifundiários que ainda careciam, o barato e já nem tão farto, porém exausto braço e mãos-de-obra escrava. Negra herança colonial.

- A lei também não teve o cuidado de determinar o que aconteceria com os ex-escravos depois de libertos. Então seguiu-se duas situações: 1. No campo pouco mudou e o ex-escravo passou a uma condição semi-servil. Trabalhando por comida e moradia e podendo ser dispensado e maltratado como sempre. E sem recurso a revoltar-se, pois, agora era livre, oras! Tá reclamando o quê? Não quer vai embora!
2. Se estivesse em área urbana o ex-escravo não teria como competir com a então farta mão-de-obra imigrante assalariada. Essa era mais produtiva e branca, em tempos de preocupação oficial com o embranquecimento do Brasil, ser branco era a melhor parte do currículo... O ex-escravo urbano foi então relegado à sombra social, ao gueto, à margem. Esse marginal agora pelo menos poderia preferir a sua condição de trabalho temporário pra ganhar quase nada. E viver de soprar a fumaça de seu bongô* nas escadas do cais do porto nos muitos dias sem trabalho. Ao invés de arrumar um emprego que o prendesse pra sempre, pra sempre ganhar a mesma miséria de sempre... E muita gente então dizia: - É! Esses negros definitivamente não gostam de trabalhar! Pois agora estão livres e nem procuram trabalho! Nem se esforçam pra melhorar... Tão pensando o quê?

- Os brancos coroados eram nosso imperador D. Pedro II e sua filha a Princesa Isabel, declaradamente abolicionistas. Em um país racista como o nosso, o fato de uma branca ter sido a responsável pela assinatura que libertou os negros... Ah! Não sei não, mas é claro que isso deveria ser lembrado para denegrir a lei... Afinal qual outras leis foram feitas por negros nesse país? E por aí vão às críticas ao tal 13 de maio, umas legítimas, outras nem tanto, porém:

- Em 1995 comemorou-se 300 anos da resistência de Zumbi dos Palmares no nosso mais conhecido quilombo de outrora. Nesse ano adotaram o dia 20 de novembro como o "Dia da Consciência Negra". Lembro-me de algum falatório em torno da data, como sendo também uma alternativa ao tão criticado 13 de maio oficial.

O fato é que de uns anos para cá nossa historiografia tenta reabilitar a data de hoje como um momento importante na construção de nossa cidadania. Como um avanço sócio-político. Sim! Ainda que atrasado e complexado.

Pra terminar vamos comemorar esse 13, lembrando aqui um samba-enredo da melhor qualidade, que muito mais gente deveria conhecer... Tão malandro em seu eruditismo pernóstico quanto brilhante em sua resolução final. E eu tive o prazer de conhecer o tal sambinha ainda recém nascido. Lembro de meu compadre Wella num bar, todo empolgado, contando como ele mais o amigo Paulinho Carvalho fizeram o samba: - Num estalo! Primeiro veio o nome gigante - quem sabe uma lembrança das decorebas exigidas pelos profs de história do passado. E depois a segunda parte: totalmente pícara! E eu ali em pé, ouvindo no meio da zoeira de vozes e gravando de imediato, pra depois ir cantando pra casa, a melhor homenagem à princesa Dona Isabé que eu conheço. Sempre escuto a percussão... Pesada! E no cavaquinho... Nervoso!
Mas aqui por enquanto vai só a letra mesmo:



"Isabel Cristina"
(Wella-Paulinho Carvalho)(2001)

Isabel Cristina
Leopoldina
Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança
falar teu nome todo cansa!
E como cansa... E como cansa...
E eu cansei!

Cansei de ser escravo
Bateu as asas a liberdade no céu
E hoje, tenho direito à preguiça
Só vô chamar Vossa Alteza de Bebel!


De Bebel!




"Viva aquele que se presta a esta ocupação! Salve o compositor popular!"